Desconfiando do Brasil

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Disse aqui que publicaria, no início de cada mês, desde abril, mês seguinte à minha formatura em Jornalismo, um texto meu escrito nos tempos de faculdade. Uma forma de celebrar a passagem dessa etapa tão importante da minha vida. Desde lá já foram Vida sem vírgulas, Crônica dos espaços e o Seu João e o Jornalismo.

O de hoje é o texto abaixo, escrito em setembro de 2002. Vivíamos o entusiasmo de termos visto Felipão levar a Seleção de futebol ao Pentacampenato. Mas desconfiei que aquilo não era suficiente. Boa leitura.

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Desconfiando do Brasil

Embora sejamos a todo tempo desafiados por algum assunto que nunca ouvimos sequer comentar, em razão de uma tal “evolução” a que toda espécie é submetida, de passarelas imagino que todos entendam. No mínimo, sabem bem o que é uma.

Pois é. Passei a desconfiar que aquela não era apenas uma simples passarela, como todas as outras que conhecemos. Primeiro porque ela é irônica por demais e não deixou que o tempo apagasse inscrições do tipo “O Mundo tem Pentacampeão” ou “Canoas tem Felipão”. Ela insiste. Apesar de o mundo inteiro já ter esquecido que o país da Amazônia tirou o primeiro lugar num esporte chamado futebol e que a conquista não põe pão na mesa de nenhum destes amazonenses.

Toda vez que um jornal estampa na capa matérias mostrando as melancólicas posições do Brasil em rankings de corrupção, de miséria e tráfico de drogas, lembro da Passarela, lembro que sou um pentacampeão. Mas, confesso: isso já não vem adiantando mais. Preciso logo de algum analgésico para tanta realidade. A verdade é que sofremos com o caos de nossa sociedade, enquanto muitos ainda vivem sob ilusões. Este é um país de gente pobre, que corre todos os dias em busca do pão, passa sobre aquela Passarela e esboça um sorriso: sou um pentacampeão.

A Passarela liga o bairro com o centro de Canoas, situada na região metropolitana de Porto Alegre. Enquanto milhares de pessoas iniciam suas travessias sobre ela  em busca do outro lado, uma delas não o faz. Quase no pé de um dos lados da Passarela, um senhor de meia-idade com roupas esfarrapas e pele escurecida pela sujeira, pede esmolas e tenta cativar os viandantes com um cartaz que traz escrito quase isso: “Tenho Câncer e Aids há muitos anos.”

Entre uma gente que se acha colorida e que vive se contentando com instruções parecidas com as daquela Passarela, existem milhares e milhares de pentacampeões sofrendo com a doença, com a miséria e com a fome. Encerrou-se, no último sábado, a Semana da Pátria. Parece que essa data esvaziou-se de significado através dos anos. Quem sabe isso tenha sido causado por um boato espalhado por alguém que descobriu a farsa e cansou de viver se contentando com tão pouco. Parece que a Pátria não significa mais. O seu dia serve só para pintar de vermelho alguns números do calendário e para alegrar o preguiçoso com o feriado.

Em tempos de eleição, faixas, banners e santinhos são colados nos postes, nos muros e nas fachadas, algumas vezes até desrespeitando leis que proíbem tais práticas. Um dia desses, avistei de longe a Passarela e vi que nem ela tinha escapado. Pensei que, vaidosa como era, não permitiria tal abuso. Se a questão ainda fosse ideológica, vá lá. Mas tinha propaganda de muitos. Pra quem vinha de lá, o recado era aquele mesmo da Copa do Mundo. Mas pra quem vinha de cá, a surpresa: uma grande faixa de algum cicrano tinha se beneficiado da esbelteza da Passarela: “Canoas tem”, digamos, “Chico Bento – PAA”.

Parece que a Passarela resolveu tomar uma atitude. Resolveu chamar a atenção, mesmo que parcialmente, para o voto consciente. Certamente a solução do país não está escondida em algum canto dos próximos quatro anos. Uma solução para cento e setenta e poucos milhões de habitantes está lá mais pra frente. O que se espera de um bom governo, é um pouco menos de vaidade. Utilizar a gestão para realizar sonhos do partido e encher os bolsos só nos faz retroceder ainda mais. Em quatro anos é preciso amadurecer para projetos que se tornarão realidade em longo prazo. Mas já é sabido o que acontece. Entra governo, sai governo, e de quatro em quatro anos mudam os pensamentos, mudam-se as convicções, mudam as cabeças. A Pátria precisa de um governo que tome providências sensatas e tenha uma visão que alcance o futuro.

E por algum tempo, a cena vai se repetir. A Passarela vai continuar lá. Aquele senhor pedinte também. A tinta do letreiro e as faixas de candidatos vão continuar me fazendo um desconfiado.

Vou continuar desconfiando que um país não é o mesmo que uma passarela, que dá passagem ao despreocupado, ignora o aflito e se exibe com ilusões. Vou continuar acreditando que podemos ser muito mais que pedestres. E que podemos ir muito além da desconfiança.

Juliano RigattiDesconfiando do Brasil

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