Sobre o que assistiremos no futuro

No comments

Certamente, na minha humilde opinião, a idéia da criação da Tele Sur foi o que houve de mais concreto — e, exageremos, persuasivo — que a cultura não-hegemônica da metade sul do continente americano poderia ter apresentado na quinta edição do Fórum Social Mundial. Centralizada em Caracas, na Venezuela, a nova emissora que pretende dar voz a rica diversidade dos povos latinos, terá transmissão via satélite, 24 horas de programação e linha editorial desenvolvidos em parcerias com canais alternativos, comunitários e afins de toda a América Latina. “Através de uma equipe comprometida, o canal do sul busca converter-se num modelo capaz de competir com a produção estadunidense e européia, pondo-se ao serviço das hoje ignoradas iniciativas latino-americanas de produção audiovisuais independentes”. Esta é, portanto, uma das missões e objetivos do canal que quer dar voz de equilíbrio ao massificado discurso do norte. “Hoje, a imagem midiática que é difundida na América Latina não dá conta da diversidade e da riqueza do imaginário latino-americano. Não contribui para o conhecimento de nós mesmos, da evolução de nossas realidades, nem da valorização de nossas culturas milenares e suas projeções no presente e no futuro.”

Pode até ser que não seja essa maravilha. Eu sei. Muitos criticam a possibilidade do Fórum ter uma de suas próximas edições sediadas pela Venezuela. Dizem que este seria um grande plano de Chávez para se consolidar no poder e disseminar ainda mais sua política revolucionária pela América e pelo mundo. A Tele Sur pode ser uma ferramenta para isso também. Por essas e por outras que virão, que me explico. A Tele Sur pode não ser a solução para o adestramento televisivo ao qual estamos submetidos há décadas e décadas. Certamente não o é. Mas é o início, é a essência de uma estrutura que sempre defendi como premissa para a possibilidade da existência de um outro mundo. Mais justo, mais real, menos material. Não tenho gosto, não, pela revolução armada. Nem pelos pontos de exclamação. Não venho desta geração. Minha geração cresceu sonhando com a diplomacia e a paz entre os povos. Indignada e confusa com a matança diária que assola o Oriente Médio. Defendendo o diálogo e a resposta inteligente.

Em entrevista a revista Carta Capital, edição de 9 de fevereiro deste ano, Steve Solot, atual vice-presidente da Motion Picture Association (MPA), conversou com a repórter Ana Paula Sousa sobre a ação da cultura hollywoodiana sobre a produção audiovisual brasileira. A MPA congrega os sete grandes estúdios americanos — como Fox, Warner, Columbia e Universal — e está montando um escritório em São Paulo, onde centralizará sua atuação na América Latina. A associação terá, ainda, representação em Cingapura, na Ásia, e em Bruxelas, na Europa. No Brasil, ao invés da associação destinar 11% da remessa de lucros que enviaria aos Estados Unidos à Receita, o governo permite que a MPA invista em produção nacional 70% do que pagaria em impostos. Ou seja, mais uma vez a cultura americana banca o vôo da imaginação tupiniquim, enquanto pinta com suas cores a ilusão de termos um cinema independente e com sua própria cara. Parece bairrismo da minha parte pensar assim. Talvez pense você que o isolamento também não levaria a nada. Não. Brigo contra a hegemonia e estou me tornando repetitivo. A França tem um dos melhores cinemas do mundo. Talvez porque barre intervenções deste tipo em sua cultura. Há pouco, decidiram que o filme Un Long Dimanche de Fiançalles não teria financiamento do governo por ter sido co-produzido pela Warner. Não, não é bairrismo. É proteção contra um sistema que, haja visto, não deu, não dá certo. “Mas a França, historicamente, tem sido um país que resiste ao processo de globalização cultural em benefício próprio”, comenta o entrevistado. Sejamos assim, então. Contra a globalização e a favor de um outro meio de espalhar o avanço e a modernidade, que não seja às custas da vida, da alma, da natureza e do bolso dos outros.

A criação da Tele Sur e a mostra das pretensões da MPA no Brasil, são, sim, contrapontos interessantes. Cheiram bem e estão no ponto para uma saudável discussão sobre o futuro da humanidade. Eis algo saboroso que o Fórum nos deixou. A idéia de confrontar os dois hemisférios.

A Uzina produz mais energia a cada provocação deste tipo. Largue o controle remoto e responda, que você acha a respeito?

Juliano RigattiSobre o que assistiremos no futuro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *